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Paulo Caruso |
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Em pleno sábado, no Templo
da Cidadania, o Conselho Editorial do III Berro teve o prazer de realizar uma
entrevista, com direito a muita risada, com um dos grandes humoristas do país.
Responsável pela última página de humor de uma revista semanal de grande
circulação, Paulo Caruso tem registrado, com sua pena arguta, o cotidiano da
política brasileira, através do seu “Bar na Avenida Brasil”.
A entrevista foi realizada durante a Feira do Livro de Ribeirão Preto, em 2001,
um dos grandes eventos da cidade, que já se inclui no calendário literário do
país.
Irmão gêmeo de Chico Caruso, conta um pouco para os leitores do Berro o universo
dos humoristas que usam o cartum como instrumento de denúncia, politização,
sarcasmo, deboche, mas fundamentalmente para fazer rir as pessoas e provocar
reflexões.
Com vocês, Paulo Caruso!
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| Foto: Fernando Sousa |
O III Berro – Qual o grande condimento do humor, que possibilita tratar, muitas vezes, coisas sérias fazendo rir?
Paulo Caruso – Estavam reunidos vários humoristas e jornalistas, uma determinada vez, e cada um trazendo suas teorias sobre o humor, cada uma mais prolixa que a outra, até que o Glauco, irmão do Pelicano, soltou uma que fez todo mundo rir: “Humor é a arte de fazer rir”. O humor, ainda segundo o Glauco, não está ligado só ao riso, mas diz respeito aos líquidos que circulam em nós, aos humores do ser humano. Algumas vezes está ligado à raiva, indignação, tristeza e alegria. Os grandes humoristas, como Chaplin, são aqueles que fazem rir e chorar, esse é que é o domínio do humor. As matérias primas são as emoções e a condição humana. No meu caso particular, assim como Chico (Caruso), nós já éramos uma piada da natureza, por sermos gêmeos.
OB – Mas foi uma piada do seu pai ou da sua mãe!
PC – Não sei, só sei que houve penetração, não foi inseminação artificial! Até quando nós éramos pequenos, chegamos dando explicações científicas, dizendo para o meu pai que tínhamos entendido porque gêmeos, pois quando a célula se divide... Meu pai, interrompendo, disse: “Não, não, não. Vocês são gêmeos porque minha porra é foda!”
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“Nós não fazemos humor simplesmente para divertir as pessoas, mas para promover a transformação delas, ao refletirem sobre o que desenhamos ou escrevemos.” |
OB – O que é mais fácil fazer: humor no capitalismo globalizado ou na época da ditadura?
PC – É claro que na democracia é mais fácil de fazer, pois você tem liberdade, de pensar inclusive. A ditadura impõe restrições, o que a transforma num inimigo comum. Aí, neste ponto de vista, é mais fácil fazer humor debaixo do tacão, porque você tem um inimigo comum visível. A sociedade toda encara esse inimigo, enquanto na abertura você não tem essa coisa tão explícita, você acaba precisando ser mais ágil e ter mais acuidade para fazer a crítica da esquerda... Um sociólogo que assume a presidência da República e toma posições totalmente contraditórias, do ponto de vista de uma ótica de esquerda, mas fica mais difícil.
OB – Um pouco de opressão ajuda a fazer humor? Essa caça aos terroristas promovida pelos EUA não dá material para isso?
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Foto: Fernando Sousa |
PC – Eu não penso assim. Os humoristas são muito mal humorados, são muito céticos e sérios e em função disso é que eles são capazes de criticar os outros. Nós não fazemos humor simplesmente para divertir as pessoas, mas para promover a transformação delas, ao refletirem sobre o que desenhamos ou escrevemos. Quanto à questão dos EUA, isso já tem saído um monte de piadas, como na época da morte do Senna. “Errar é humano, acertar é mussulmano”; “Para botar a mão no Taleban você vai ter que hesbolah, hesbolah, hesbolah”; Eu estou fazendo um samba: “Procura-se vivo ou morto um turco milionário, que fez o mundo de louco e o Bush, papel de otário e é a estrela do noticiário do nosso planeta”. O samba tá na cabeça, só falta terminar. Algumas pessoas têm capacidade de fazer humor durante a crise. A caricatura nasceu, como linguagem, na pintura, num momento de ruptura no modelo medieval, quando se discutia a colocação do homem no meio do poder divino, dos reis, quando começa a se falar que não mais Deus é o centro de tudo, mas o homem. A coroação disso é na Revolução Francesa, quando se degolam os reis e a caricatura floresce. A burguesia nascente vai registrar sua ascensão não na pintura, mas na caricatura, evoluindo até o espaço moderno da caricatura na imprensa. Hoje você já tem outras linguagens com a chegada da Internet. Eu, por exemplo, me sinto nessa passagem igual o ator de cinema mudo para o cinema falado, quando ele percebe que sua voz é uma bosta. Vou ter que me esmerar na minha produção e ter que me especializar também nesta área de web, para continuar a fazer o que eu faço.
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“Eu acho que o grande problema do País é a concentração de renda.” |
OB – Você está falando do aspecto técnico, mas um humor parece ter aquela magia que ocorre no mili-segundo. Como é isso?
PC – Você está falando do humor visual. Tem até um desenho de um artista inglês, que mostra muito isso. Ele foi fazer a cobertura do período do impeachment do Nixon e fez um sujeito jogando fora da boca um monte de sujeira, uma coisa escatológica. Embaixo, apenas uma frase: “Isto não é o desenho de um homem doente. É o desenho de um homem tentando respirar.” Com aquela linha ele subvertia o que você estava imaginando que era um homem jogando coisas para fora, o que tornava o desenho uma coisa mais repulsiva ainda. Este desenho mostrava isso, a capacidade que o texto tem. Depois da primeira porrada com o visual, vem o texto subvertendo o que você está vendo. O casamento da imagem e da palavra é que é a arte que a gente pratica. O humor leva estas duas coisas em consideração. A primeira leitura que é de impacto, a visual; depois, a segunda, com o texto que explora até outra leitura que a própria imagem pode sugerir. No entanto, tem alguns desenhos que bastam eles, o desenho já fala tudo sem necessidade de texto.
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Foto: Fernando Sousa |
OB – Uma coisa interessante é que você também produz coisas junto com seu irmão. A impressão é que o desenho é uma coisa individual, como uma punheta, como é isso?
PC – Inclusive, punheta a gente só toca separado! Não é fácil, pois tem uma disputa natural nesta coisa dos gêmeos. Eu sempre tento, mas ele se recusa mais. Com a música, a gente tem conseguido criar mais em parceria; ele faz a letra e eu faço a música.
OB – O Pelicano conta que algumas vezes o Glauco vem em Ribeirão e pega coisas dele. Depois ele vê publicado e liga para o Glauco, que diz que se inspirou nele. O Pelicano xinga, “inspirou nada, roubou”. Isso ocorre com vocês?
PC – Não, isso não ocorre. Na verdade, meu irmão se definiu pelo desenho muito mais cedo do que eu. Eu sempre tive essa divisão entre música e o desenho. O Chico é muito mais repórter do que eu. Ele é capaz de fazer um desenho e depois ouve no rádio que mudou a situação, e ele modifica o desenho para estar mais atual. Por exemplo, ele fez uma charge quando a filha do Sílvio Santos foi libertada e foi na sacada e ficou falando de Deus; ele imediatamente fez o desenho com o Garotinho dizendo “Você tem a filha que eu pedi a Deus”. Sabe como é. Essa coisa em cima do lance. É o gol, jornalismo é isso. Eu sou mais demorado. Meu tempo é outro. Eu desenho na Isto É, faço o desenho numa semana para sair na outra. Minha piada tem que ser mais perene. Veja a que eu fiz agora mostrando o Bush entrando no Bar Brasil, que é o palco das minhas estórias, gritando que isso não vai ficar assim, vou pegar esse cara, vivo ou morto. O pessoal pergunta quem é, ele responde um turco milionário, destruiu a maior cidade do mundo. Aí o Maluf sai gritando que não tem nada a ver com isso, que não foi ele. Essa piada tem que ficar uma semana. Agora você me pergunta quem rouba quem. Eu sou muito influenciado pelo Chico, no desenho.
OB – E o humor na televisão?
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“Estados Unidos: Nós somos os criadores sob o signo da miséria.” |
PC – Olha, a gente tentou vários pilotos, mas nunca conseguimos. É um espaço mais vigiado, difícil fazer com liberdade pelo alcance que tem. O pessoal do Casseta e Planeta consegue, pois a maior parte do humor deles é uma sátira e propaganda da própria programação da globo. A televisão herdou muito do humor do rádio.
OB – Voltando para a questão do humor ser o inesperado. Ãs vezes é o oposto, como no caso da sua charge com o Maluf; não é o inesperado, é?
PC – É verdade, há casos que não. Inclusive, nesta charge, eu ia colocar o título de Justiça Infinita. Quando eles mudaram, eu mudei para Liberdade Duradoura. Se aplica bem ao Maluf; ele está livre há tempos, não é?
OB – É comum algumas publicações pegar coisas de artistas, publicar e não querer pagar, depois dizer que é uma homenagem; isso acontece com vocês?
PC – Tem diversos níveis. Muitos artistas como não tem escola de desenho de humor, muita gente começa imitando. Eu, por exemplo, comecei imitando desesperadamente o Ziraldo. Hoje algumas pessoas me imitam, imitam o Chico, Angeli, etc. Eu hoje vivo num apartamento que ganhei numa ação judicial milionária contra um cara que me fez uma dessas “homenagens”. Ele fez um anúncio na revista que eu escrevo e no anúncio citava minha página; depois de dez anos eu ganhei a ação. Esse problema é pouco divulgado, a questão do direito autoral. Veja o caso dos artistas das novelas que são depois vendidas para vários países, e os artistas não recebem nada. Não querem que as pessoas saibam que elas têm direitos a receber. Eu fiz um trabalho sobre direito autoral em música, chamava: Ecad, Cadê o Meu? A maioria dos músicos não sabe que o Ecad é um órgão privado, criado pelos artistas. Todo mundo acha que é um órgão público, mas não é. O Ecad é uma central arrecadadora, subordinada ao Conselho Nacional de Direito Autoral. Quando eu comecei a fazer esta cartilha, os fiscais começaram a me ligar ameaçando, dizendo que se eles fossem eu, não mexeriam com isso. Essa discussão ainda é muito ruim no Brasil.
OB – Uma colagem também fere o direito autoral?
PC – Se não houver autorização do autor, está sujeito a uma ação.
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| Foto: Fernando Sousa |
OB – A política é a maior fonte de inspiração do humor?
PC – Eu acho que é. A minha geração toda, a gente foi formado na ditadura e isso marcou muito e a forma de expressar o inconformismo com o regime foi o humor.
OB – E essa coisa de vários humoristas também terem a música como forma de expressão?
PC – Muita gente sempre achou que o desenho e a música eram artes que não se misturavam, por terem características esquizofrênicas. Mas muitos humoristas que eu conheço associam o humor com a música. Assim como os atletas são bons em várias atividades esportivas, os humoristas investigam todas as possibilidades de comunicação. A música é uma forma. Aqui no Brasil nós temos uma indústria musical muito forte. A indústria editorial não é do mesmo porte da indústria musical. Na França, por exemplo, tem vários artistas com trabalho editorial que fazem o mesmo sucesso que os nossos artistas da música. São reconhecidos na rua, como artistas pop.
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“Os humoristas são muito mal humorados; são muito céticos e sérios, e em função disso é que eles são capazes de criticar os outros.” |
OB – O personagem O Amigo da Onça, do Péricles, qual a importância dele para sua geração?
PC – Para mim influenciou de tal forma que a partir dele eu criei o Bar Brasil. Eu queria ter uma continuidade e que as pessoas ficassem esperando para ver qual a piada da semana, como todo mundo ficava esperando O Amigo da Onça. Com isso, eu já estou na revista Isto É há mais de vinte anos. A revista já mudou umas três ou quatro vezes. Os leitores também mudaram e o Bar Brasil, última página da revista, continua lá.
OB – O Brasil, com todas as suas mazelas, tem no humor seu maior denunciante. O humor é mais engajado que outras formas de expressão artística?
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Foto: Fernando Sousa |
PC - Eu acho que o grande problema do país é a concentração de renda. Nós somos os criadores sob o signo da miséria, como diz o Caetano, mas atingimos pouca gente num país de analfabetos. Talvez por atingir formadores de opinião, o humor provoque essa sensação de engajamento.
OB – No Brasil, nós observamos vários projetos de educação e cultura que não possuem continuidade, será que isso não tem a ver com não se conseguir massificar a boa produção cultural no país?
PC – O problema é que a miséria grassa. A oferta de educação e cultura se não encontra continuidade na casa dele, acaba se perdendo. Como fazer uma política cultural efetiva, esse é o nosso desafio.
OB – O mundo globalizado estimula a competição. É permitido até mentir. Esses valores não justificam um pouco a mediocridade?
PC – Os responsáveis pela geração de cultura têm muito dessa competição. As vaidades são difíceis de administrar. Vejam o caso da Revista Bundas; uns preferiam a Bundas do Ziraldo, outros a do Chico, outros a do Millôr, aí a Bundas rachou. O sucesso só acontece quando se consegue administrar as vaidades.
OB – O Ziraldo, quando esteve aqui em Ribeirão Preto e viu O III Berro, leu o editorial e disse que aquele era o editorial que ele queria ter visto na Bundas, mas segundo ele, “aqueles bundas dos meus amigos não quiseram...”
PC – Mas é uma tremenda injustiça, porque os editoriais da Bundas, escritos pelo Luís Fernando Veríssimo, em Porto Alegre, sempre foi o retrato do momento.
OB – No caso do humor, além das vaidades, não seria também o característico mau-humor dos humoristas responsável pela desagregação?
PC – O Jaguar é um exemplo disso. É um grande humorista, mas eu já passei várias situações vendo o mau-humor dele. Num bar, ele chegou, aí um sujeito puxou assunto com ele, e ele convidou o sujeito para sentar na mesa. Com o tempo, o cara se revela um chato. De repente, o Jaguar vira para o sujeito aos berros: “Escuta, quem te convidou para sentar aqui, não quero você aqui. Vai embora, filho da puta...” No dia seguinte, nós fomos beber no mesmo bar e sentamos. O cara chato estava na mesa do lado. De repente, papo rolando e o Jaguar diz: “E aí, companheiro, chega mais, senta aqui”. Alguém perguntou para ele se ele não se lembrava que ele tinha expulsado o cara da mesa no dia anterior. Ele espantado, falou: “Eu?” De repente, novamente o cara vai se tornando um chato e novamente o Jaguar expulsa aos berros o sujeito da mesa, olha para quem tinha perguntado se ele não se lembrava do ocorrido e grita: “E, você, amanhã vê se não me lembra disso, hein!”
OB – Tem outros casos do Jaguar?
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| Foto: Fernando Sousa |
PC – Tem essa história que lá pelas tantas ele resolve casar com a cozinheira, a empregada dele, a Preta. Ele disse que um dia chegou em casa e a empregada estava completamente nua e se joga em cima dele. Ele é um cara familiar, uma pessoa absolutamente fiel, não consegue ter amante. Está com uma mulher e só com uma. Aí abriu o jogo com a mulher, aconteceu e ele saiu com a nova mulher. Uma confusão familiar e depois disso ele fala para Preta que tinha conseguido um apartamento lindo em Botafogo (bairro do Rio de Janeiro). A Preta olha para ele e diz: “O quê? Levo minha vida inteira para chegar no Leme, caso com o patrão e vou voltar para Botafogo!” Eu luto para ele escrever os livros de memória dele antes que ele esqueça.
OB – Paulo, e os projetos novos?
PC – Eu agora estou com essa coisa da música; com dois discos, “Pra seu Governo” e “La Nave Va”. Tem o novo livro de charges da revista Isto É. Soluções não tenho, mas projetos são muitos. Uma coisa interessante que vai acontecer é uma feira de marketing, em São Paulo, chama Maxmid, e eles vão montar a cidade da mídia. Eu propus ter um stand, uma Avenida chamada Brasil, com uns 800 metros quadrados, com vários elementos de multimídia. Ainda é projeto também, não consegui fazer.
OB – E o salão de humor de Piracicaba?
PC – Eu agora estou trabalhando para o salão virar também uma exposição viva, com a possibilidade das pessoas interagirem com algumas obras. Fizemos o primeiro catálogo e vamos continuar reunindo humoristas e revelando novos talentos.